
O que há de errado com nós? Quando foi que perdemos a capacidade de dar e receber afeto sem querer nada em troca? Exalar, pela simples necessidade de escoar amor, como fazem as águas dos rios quando se derramam sobre as pedras? Não devíamos ser nós, também, como as águas dos rios, já que somos feitos de água? O que há com nós? Fomos entorpecidos por qual droga? Ou somos, ainda, seres tão primitivos que só conseguimos perceber o que se esconde sob o véu da libido? Ora, existe muito mais coisa entre a carne e o coração do que sonha nossa vã poesia. Por que nos sentimos tão idiotas quando não somos retribuídos em nossos apelos amorosos? E por que corremos o risco de ficar mal vistos quando manifestamos a festa que algumas pessoas provocam em nossos corações? Eu devo ser, mesmo, meio Leila Diniz, como alguns amigos teimam em dizer. Uma Leila Diniz com biquínis menos bregas, segundo um deles. Devo ser, mesmo, meio Leila Diniz, pois não caibo em nenhuma convenção, a não ser as que eu mesma crio. Respeito, mas não admiro, os que se protegem da chuva a dois para não criar vínculos. Quem julga. Quem vê segundas intenções até no vôo de um inseto. O meu caminho não é e nunca foi reto e sempre paguei um preço alto por isso. Eu não tenho medo de dizer “te amo” simplesmente porque aprendi a sentir “te amo”. E eu amo tantas coisas! Amo o aconchego das casas e a maneira como os pés se procuram debaixo das cobertas. Amo a ciranda dos dedos sobre a pele e o aroma dos poemas do Fernando Pessoa. Amo o som da rima, o cheiro de terra molhada, o motivo do riso, não a risada. Amo meu homem. Não pelo o que ele tem de sagrado ou profano, mas porque ele tem olhos de cachorro do mato. Amo meus textos e os livros que ainda não li nem escrevi. Amo a textura do cabelo dos meus sobrinhos. Amo meu pai por seu andar doce. Amo minha mãe por sua meninice. Amo as pessoas! Amo as pessoas que me ensinam coisas. Eu sou uma máquina de amar e quem não consegue ver, sentir, entender, isso, azar...
Cida Targino

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