sexta-feira, 19 de junho de 2009

"A menina que roubava livros"


Engraçado como cada coisa tem o seu momento.
Pelo menos comigo acontece assim.
Comprei "A menina que roubava livros" há aproximadamente 1 ano.
Durante uma viagem a Rio.
O comprei mais pela capa, e porque já havia lido seu título em algum lugar. Provavelmente na revista Veja. Talvez.
Mas com certeza conhecia apenas o título. Não tinha noção do conteúdo do livro.
Como a capa era interessante, um desenho bonito e, principalmente, trazia as seguintes palavras "quando a morte decide lhe contar uma história, você deve parar para ouvir".
Impossível resistir, não?
Acontece que cheguei em casa e, animada, fui me deleitar com o tal livro.
Decepção.
Bem feito!
Precisa ser muito burra para não imaginar que a morte tem fortes argumentos para contar uma história sobre a 2ª Guerra Mundial.
A maldita 2ª Guerra Mundial.
Aquela a qual eu jurei nunca mais destinar um milésimo de atenção.
A mesma que há pouco tempo já me engambelou com "
O menino de pijama listrado".
Mas desta vez não.
Era só um livro.
R$ 30,00, por aí.
Não vale à pena.
Depois de duas tentativas de avançar pelas páginas descritas tão minuciosamente pela morte, ADEUS.
No entanto, meses depois, mais precisamente ontem, decidi vencer mais este desafio.
Afinal, era só um livro. Não poderia ser tão terrível assim.
Resgatei "a menina", a morte e todas as almas que esta carregava, já pela manhã.
Reiniciei a leitura do ponto mais apropriado. O princípio.
Reli as poucas dolorosas páginas que já havia percorrido.
Desta vez não me rendi.
Li durante todo o dia.
E a noite também.
Faltavam umas 80 páginas apenas quando o sono me venceu. Quase meia-noite. Horário apropriado para encerrar uma narrativa da morte.
Dormi mal.
Acordei e voltei ao livro.
Avancei mais algumas páginas e precisei interromper a leitura.
Há poucas horas pude retomá-la.
Faltava pouco.
E, sinceramente, já não foi nenhum sacrifício. Não precisei mais vencer as páginas, de forma envolvente elas me convidaram a seguir a diante e eu o fiz, agora, com prazer.
As formas que se apresentavam pelas palavras ainda me causaram uma certa repulsa que eu acredito ser proveniente do medo. Medo de gente.
Apenas no final, enchi os olhos de lágrimas em alguns momentos. Mas há alguns anos decidi que não choraria mais pelas vítimas dele (não consigo escrever o nome).
Contive as lágrimas e ouvi a morte até o seu último relato.
Ouvi, sim.
Apesar de ler as palavras, apesar do conteúdo delas me causar repulsa, a narrativa de Markus Zusak é tão terrivelmente envolvente que, em vários momentos, tive a nítida impressão de ouvir a morte sussurar em meus ouvidos.
Não tive medo de ouvir a morte. Ela apenas me contava uma história.
Como eu já disse, tive medo sim, mas medo de gente.

Cida Targino

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